4 de setembro de 2010

Zé Mané (I)

José Manoel, de batismo, Zé Mané, na vida, é um questionador revoltado com o mundo e suas incongruências. Detesta o nome: " Somos milhões de zé manés no Brasil e eu tenho de carregar o fardo deste nome maldito, não é justo...não mesmo!"- protesta ele. Já cheio de umas e outras- já está nas outras- seu esporte predileto é falar mal do governo. Final de tarde, boteco cheio, a turma exige de Zé Mané um discurso. Dirige-se ao centro do salão, entorna mais uma dose de conhaque e inícia sua peroração, rodeado de pinguços de todas às estirpes. A voz potente, um tanto quanto pastosa( por motivos óbvios) retumba pelo boteco.
" Zés, como eu, manés como " vozes", é preciso dar um basta na canalhada que tomou conta de nosso Brasil, outrora varonil, agora feminil, reajamos irmãos em fé e cana, vejam vocês hirsutos contribuintes, o governo federal, sustentado com o  suor e o sangue de nossa labuta incessante, dispõe de quarenta e sete mil cargos de confiança para distribuir entre seus apaniguados e asseclas...um descalabro! Ora meus nobres colegas de altercações álcool- filosóficas, funcionário do Estado, qualquer um- do presidente ao mais humilde faxineiro é empregado nosso...do povo, que unido ou desunido sempre é vencido. E vejam meus nobres ouvintes, os dados que vos passo nessa sagrada hora de comunhão álcool- afetiva, se referem somente ao governo federal, imaginem vocês o que não ocorre nos estados, mormente os mais carentes, quase sempre dominados por oligarquias vorazes, como um cardume de piranhas, em abocanhar os suados reais que tiram de nossos esturricados bolsos. E " vozes", meus inauditos e ignaros companheiros de doces aventuras botiquinescas, me chamam de Zé Mané, o sou por imposição batismal e cartorial, pior sois "vozes", que o são por serem pobres anacolutos desta pátria, que antes de mãe gentil, é madrasta...a mais vil! Agora vosso vigintivirato orador vai sorver um nobre Jorginho( conhaque Georges Albert) no intuito de alimentar os neurônios de vigor energético advindo das nobres vinhas que produzem tão extasiante néctar. E tenho dito!

Adeus

Está na hora de ir
Acabou-se o tempo
Meu Deus!
Ó Deus!
Adeus!

É tempo do nada:
Com Deus?
Sem Deus?



Que me importa?
Levanto-me, sereno,
E vou abrir a porta

Não há Deus
Na soleira da porta
Só...Adeus!


                                                              

2 de setembro de 2010

Excesso

Eu
Nasci
Excesso
Vivi
Demasiado
Excesso
De álcool
De cigarro
De paixão
Excedi-me
De mim
De vida
De tudo

Sobrei-me
Em solidão
E assim
Vou seguindo
À procissão
Dos fantamas
Que me sobraram


 
Ao menos
Não estou



                                               

Quando fores

 quando fores
morte, será tarde
de ti ficará
quase nada                                                                        

um pouco de pó
uma leve saudade
um lap-top avariado
uma vida mal vivida
um vestido amarrotado
uma- talvez!- lágrima derramada                                      
e só! o que é muito-ainda.         




                                                                               

E eu pago

Acabo de falar com Totó, que anda sumido, e estou aqui rachando de rir. Depois das lamúrias sobre  o seu time, que anda apanhando mais que as mulheres do Bruno, perguntei pelo Jilózinho, eis a resposta: - Aquele safado tá de caganeira, nem foi no velório da mulher do vizinho lá no Montanha Clube, quer dizer, mulher do vizinho não, quem morreu foi uma mulher que era cunhada da mulher do vizinho( não entendi bem, mas acho que o vizinho é dele, Totó), liguei pra ele e disse que não iria pois estava com diarréia. Diarréia nada, está é de caganeira de tanto beber cahaça, agora não compra mais bujãozinho é litro mesmo, quando vou zangar com ele, desliga o telefone na minha cara.

- Mas Totó, você conhecia a finada?- pergunto.

- Conhecer...conhecer...conhecia não, mas sou amigo do vizinho e fui ao enterro ver o movimento e encontrar os conhecidos. Até que tava bem animadinho o velório, aqui em Calçado anda tão parado que até velório dá audiência. Só faltou mesmo o cagão do Jilózinho...hahahah!

- Totó, quando vai aparecer aqui em Niterói?- indago.

- Só quando morrer e virar assombração, quem aparece é assombração seu burrinho, meu ser está querendo ir aí em novembro, de corpo presente e não aparecendo. E você vai pagar minha passagem, sem reclamar!, saí de uma prestação e entrei em outra e estou numa pindaíba danada. E vê se não me liga mais à tarde, estava tirando minha soneca e você me acordou, aliás, não me liga, eu ligo pra você, assim é melhor. Toinha me manda uns R$ 100.00, estou devendo um dinheirinho à minha lavadeira, mas só a parte do extra que ela faz. Antes que pergunte vou logo explicando: cada vez que vem lavar minhas roupas pago R$ 20.00, agora lavar e trepar é R$ 40.00, e estou em débito na segunda parte. Tô devendo R$ 60.00, você manda R$ 100.00, pago os atrasados e adianto duas, aí consigo uma de lambuja, entendeu seu burrinho. Bota amanhã na Banco do Brasil, ela vem sábado, e sábado passado ela já falou que se não pagar, meu crédito acabou e vou ter de me virar na mão mesmo. E vê se liga pro Jilózinho e zanga com ele, estou preocupado, é safado igual a você, mas adoro ele. Agora vou desligar, tenho de terminar minha soneca. Abraço!

E desliga o telefone na minha cara, como sempre!


És fogo

Não adianta, não foges de mim, foges de ti, da paixão que te consome, pobre de ti, não conseguirás, uns nascem fogo, larva efervescente e incontrolável. Aquieta-se um tempo, mas volta, e queima a alma de desejo sufocado no medo da dor. Luta vã!, que fiques onde está, na calmaria insossa a que te recolheste. E quando deitares, não fique rolando na cama, o fogo te consumindo; e se dormires, que não acordes sobressaltada, o corpo trêmulo, o suor escorrendo, não foi nada, foi só sonho. Durma em paz. Se puder!
Fuja...é mais seguro; a vidinha mais ou menos- mais menos-, a gente vai levando. Tome banho frio, uns dez por dia, acalma o fogo. Não apaga, apenas o acalma por breves momentos. O fogo arde no interior do corpo. O sangue borbulha de desejo reprimido. És fogo, ainda que queira ser água. Esconda-se de ti, se puderes, tu que nasceste para arder na incandescência da lascívia...da entrega sem limites. Que o fogo que te consome não te queime a alma. E que resistas, a ti!


1 de setembro de 2010

Sonho

E não haverá mais injustiça. A ignomínia perecerá. A fome se extinguirá. Seremos negros, brancos, amarelos, árabes e judeus. Alá é meu Deus. Deus é meu Alá. Oxalá. E viveremos como semelhantes. Iguais. Na riqueza. No infortúnio. No amor . Na dor. Na alegria. Na fantasia. Seremos um. Todos. Não haverá mais fé. Caminharemos de pé. Juntos. Altivos em dignidade. Orgulhosos em igualdade. Os fracos. Os doentes. Os loucos. Na frente. A nos guiar. Não haverá leis. Nem foras da lei. Não haverá ordens. Nem contra ordens. Seremos eu. Seremos nós. Seremos juntos. Um só. Só haverá morte morrida. Nunca morte matada. Não haverá Estado. Nem fronteiras. Só a do amor; do afeto; da solidariedade; da ternura.  Seremos delicados. E dedicados. A nós. Ao outro. Ao mundo. Sem armas. E seremos primavera. Eterna. Suave. Bela.
Quem derá...