28 de setembro de 2010

Vida bela

Dia chuvoso e triste, chego na janela e vejo um casal de rolinhas pousado no fio, namoram distraídos, não se importando com a leve garoa que cai sobre eles, nem com minha presença. Trocam carinhos ternos com o bico, esfregam delicadamente os pescoços, o macho tenta chegar aos finalmentes, a fêmea dá dois pulinhos para o lado- são como as nossas- fazendo-se de difícil, ele  encosta-se nela novamente, continua a acariciá-la com doçura, penas eriçadas na ansiedade do coito; tenta novamente, ela lhe dá duas leves bicadas, como que dizendo: ainda não!, ele dá um leve sobrevoo e se posta à sua esquerda , esfrega o pescoço no de sua amada; trocam beijos com os bicos, ele já um pouco mais agitado e impaciente, tenta outra vez, ela saltita para o lado novamente, ele dá outro sobrevoo, volta, posta-se à direita dela, as penas mais eriçadas, o peito estufado de desejo, encosta-se mais uma vez, volta a lhe fazer carinho, ela relaxa, ele aproveita, segura-a firmemente com o bico, sobe sobre ela e consuma o ato. Desce, feliz, trocam mais uns carinhos e alçam voo.
Mesmo em um dia triste e feio, há beleza na vida, é só sabermos olhar e- por que não ?- sentir uma inveja gostosa daquele casal de rolinhas. Que sejam felizes!


                                           

27 de setembro de 2010

A alma

e vida que segue
alheia a alegrias
ao tempo
[que se estreita]
ao destino
serei como a vida
seguirei em frente
impassível e frio
e quando chegar a morte
não mais me incomodarei
com a rigidez de sua presença
estou rígido, impassível e frio
o corpo- a alma ainda dói
estúpida que é...

Diário Oficial da Ditadura III

Editorial de O Globo, ex-Dário Oficial da Ditadura, deixou de sê-lo porque a ditadura acabou, publicado em 15 de dezembro de 1989:


As ideias de Collor (…) são modernas. Ele prega o restabelecimento da eficiência econômica, na razão direta de um Estado mais magro e mais ágil – como única via para alcançar justiça social. Quer abrir os portos, dinamizar as trocas, aumentar a produção e a produtividade com base na maior liberdade de empreender, e pretende encontrar a saída para os pontos de estrangulamento pela via do diálogo e da inserção dinâmica do País na comunidade das grandes potências. (…) Em Collor é possível depositar esperança, porque suas propostas estão em consonância com os procedimentos que, no resto do Mundo, têm propiciado bem-estar aos povos.


Acho desnecessário tecer qualquer comentário, a não ser o de que eles continuam sendo os mesmos reácionários que sempre foram. Vejam parte do editorial deles em 2 de abril de 64, apoiando o Golpe Militar:


Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.



Ficamos 21 anos em tratamento com os" remédios" deles: censura, cassações, tortura, assassinatos; foi ineficaz o tratamento: a democracia venceu, apesar do tratamento intensivo a que nos submeteram. É essa gente que diz defender a liberdade de imprensa. Canalhas!!!


                                                     
A democracia "deles"
                                                                

Ausência

ficou o desejo
mais nada
o coração que sangra
a vontade reprimida
angústia que dói
e mói o coração
resta-me fazer
uma oração
sem nexo
do que foi
sem ter sido
de amor ausente
seria grande
infinito até
mas não foi
não é
pode vir a ser
não sei dizer
nem maldizer
resta- me viver
sou livre
sou um
só de ti

fiquei ao léo
sem ponto
sem vírgula
sem  acento
sobrou-me um travessão
ponte para a saudade
de sua ausência
sem presença
um travessão
ponte sem destino
que estou
ou sou   




                                                                           

Um homem estranho

Sou estranho, um homem estranho, me disse uma pessoa de quem gosto muito, mais que deveria. A frase martela na minha cabeça: você é um homem estranho. Acho que ninguém nunca me definiu tão bem : um homem estranho é o que sou, passei a vida tentando descobrir o que sou e uma mulher definiu o que sou: um homem estranho...é verdade...sou estranho, emotivo demais, prefiro um bom livro a um belo carro, não acho que as coisas " são assim mesmo", perdi anos de minha vida em busca da tal felicidade, para descobrir que ela não existe, ao menos a que procurei, me afoguei em álcool, jogando fora, mais que dinheiro, sentimentos, sonhos, afetos. Fui ao inferno da alma partida, da solidão absoluta, da dor lancinante do espírito alquebrado. Um rastro de destruição, de desamor, de tudo- não sei definir. Câncer na alma, como disse a ela. Fui, muitas vezes, generoso com quem não merecia e mesquinho comigo e com  pessoas que definitivamente não mereciam. A elas peço perdão. É o mínimo que posso fazer.
Estranho...um homem estranho...lá fora chove...chuva triste...amor que não foi...pena, seguirei só, triste como a chuva, que há de passar, como a tristeza que sinto...homem estranho: verdade!

                                                                  

26 de setembro de 2010

Domingo

domingo
nublado
leve
tristeza
paira
no
ar

angústia
de
nada
talvez
de
ausência
ou
simples
penitência
de
alma
solitária


                                               

25 de setembro de 2010

Dani

Os cabelos são fartos e negros, boca carnuda e sensual de sorriso matreiro, a pele morena e lá vem ela, linda e faceira, vem aos poucos, negaceia, diz que não quer- querendo, o tom da bela voz, firme e doce, atrai e, ao mesmo tempo, a trai. Vem aos poucos, disfarça o desejo, tenta submeter o fogo que a consome, às vezes some- mas volta, negaceando, mas vem vindo, protege-se na distância, como se houvesse distância para o desejo;  a paixão arde tomando seu corpo esbelto, disfarça, muda de assunto,some, volta e provoca...mas vem vindo, o caminho se estreita, fica à cada dia mais curto, o fogo da paixão queima suas entranhas, incêndio incontrolável, ainda que diga não e tente fugir...vindo...devagar, com medo...da paixão, da entrega absoluta. Não adianta, não é desatino, nem destino...é atração, desejo. Na luta entre razão e paixão, o vencedor é sempre a segunda...é fogo...incontrolável de corpos que se unem... se fundem...o suor que escorre...o cheiro forte da paixão reprimida a perfumar o quarto... tempo que para...o beijo  suave nos lábios trêmulos de desejo realizado...uma lágrima de felicidade a escorrer dos olhos negros e densos...