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O triste dia em que Consolo, o burro da prefeitura de São José do Calçado, cometeu suicídio

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O triste dia em que Consolo, o burro da prefeitura de São José do Calçado, cometeu suicídio
Ontem recebi o telefonema de um primo muito querido, Calinha, uma beleza de ser humano! Mas, infelizmente, portador de um defeito genético grave, que acomete boa parte da população brasileira: é torcedor do invencível Mengão, além de falar pelos cotovelos, os seus e os alheios... Fala tanto que quando éramos crianças lá em São José do Calçado, seu pai, Alcênio ( o primo mais querido de minha mãe!) lhe deu um papagaio de presente e tempos depois teve de dar o bicho: o pobre do papagaio não havia aprendido a dizer uma só palavra, o Calinha não deixava o louro falar, o que levava o penoso a entrar em profunda depressão.
Em nossa conversa em que só ele falou, recordou um fato que eu havia esquecido: o suicídio do Consolo, o burro que puxava a carroça de lixo da prefeitura. Consolo havia se aposentado após anos de bons serviços prestados ao povo calçadense e passava seus dias de inativo funcionário municipal pastando tranquilamente na propriedade do Bianor Nunes, que margeava à rua Quinze. Um barranco relativamente alto separava o pasto da rua. Pois muito bem, uma bela tarde estava o Calinha conversando com  Oscar e mais dois amigos na calçada. Consolo pastava na santa paz dos muares quando, sem qualquer aviso, deu um forte relinchado e disparou morro abaixo, se atirando no meio da rua. Depois do susto inicial acorreram todos para socorrer o  burro, que era muito querido na cidade. Não adiantou, após alguns minutos estrebuchando tristemente, o Consolo bateu as patas.
O popular muar foi enterrado com pompa e circunstância, inclusive com direito a discurso em seu velório, proferido pelo saudoso João Pimenta- uma das figuras mais populares e queridas que Calçado já teve. João, à época do suicídio do desconsolado Consolo, era o presidente da Câmara de Vereadores do município e, enquanto lia o improviso que havia escrito em homenagem ao Consolo, se emocionou e derramou fartas lágrimas,.. Propôs, inclusive, que Consolo recebesse o título de cidadão calçadense, além de sugerir que se construísse uma estátua do muar, que seria postada em frente à prefeitura. Recuou da ideia após passar o efeito da vasta quantidade de Matinha- a melhor pinga da região- que havia sorvido, e de ser convencido pelo então prefeito, Antônio Borges, que não seria de bom tom ter um burro na porta do poder municipal. E completou, seu Antônio, com a fina ironia que sempre o acompanhou: "Já temos tantos lá dentro, João, não precisa mais um aqui fora!" E  foi assim que o Consolo ficou sem sua, convenhamos, merecida estátua.

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