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José Carlos Oliveira: o homem que virou Botafogo

By | 10:17 Leave a Comment
José Carlos Oliveira: o homem que virou Botafogo
José Carlos Oliveira por Amarildo
O torcedor

Jogam Flamengo e Botafogo, e meu coração se divide. Como qualquer brasileiro, nasci Flamengo; mas, aos 18 anos, decido romper com todos os preconceitos, e mesmo com as crenças mais sensatas que vinha acumulando. Para começar tudo de novo. R
esultado:(...) fiquei sem um time de futebol que me fizesse experimentar simbolicamente, nos fins de semana, as alternativas de vitória e derrota em que se resume a aventura humana. Uma tarde de domingo, jogavam Botafogo e Fluminense em partida final de campeonato. Toda a cidade estava no Maracanã. Andei pelas ruas desertas, indiferente à sorte do campeonato. Cheguei ao Metro Copacabana e entrei para ver um filme infantil. Lá dentro eram raros os adultos. Na saída, com o sol já se apagando, fui andando na direção do Roxy, e na minha frente ia uma família muito jovem: o marido com uns quarenta anos, a mulher grávida de seis meses. O marido levava ao colo um menino pequeno, e a mulher conduzia pela mão dois outros meninos. Fui andando a pensar na alegria que eles teriam se dentro de três meses nascesse a primeira menina. Provavelmente iriam ter o quarto filho apenas para alegrar o homem, cujo sonho era ser pai de uma gentil criança do sexo feminino. A jovem senhora grávida era bela, de traços finos; usava sandálias sem alças e mostrava uns pés verdadeiramente sublimes. Íamos andando assim quando topamos com um cidadão que, encostado a uma árvore, ouvia um rádio de pilha. Ao vê-lo, o homem, a mulher e as crianças ficaram paralisados. O homem e a mulher se entreolharam em silêncio e ficaram ainda algum tempo indecisos. Depois, o homem, sempre com o filho caçula no colo, aproximou-se cautelosamente do cidadão que ouvia o rádio e falou:

- Por favor... Quanto foi o jogo?
- Seis a dois – disse o outro.
- Ah, seis a dois... Mas para quem?
- Para o Botafogo, naturalmente...
- Naturalmente! – exclamou então o pai de família, e a jovem senhora ficou com o rosto iluminado. Os dois meninos que iam a pé pularam de contentamento. O pai entregou à mulher o filho de colo, beijou-a na testa, deu adeus aos outros filhos e saiu correndo na direção de um táxi que passava. Entrou no táxi e seguiu para o Túnel Novo.
Fiquei curioso para saber o que se passara. Contemplei algum tempo a jovem mulher que seguia agora o seu caminho, com dois filhos pela mão, um terceiro no colo e um quarto na barriga. Adiantei-me e lhe disse:
- Queira desculpar, mas... Que foi que houve?
- O Botafogo venceu – disse ela – e ele foi para sede do clube comemorar.
- Mas – insisti -, se ele gosta tanto assim do Botafogo, por que diabo não foi ao Maracanã? Por que se meteu no cinema?
- para evitar o enfarte! – disse ela, com simplicidade e também com uma espécie de triunfo na voz.
-Ah, sim... O Enfarte...
A mulher e os filhos seguiram caminho. Entrei num bar e pedi um cafezinho. A partir daquele dia o meu time seria o Botafogo.
José Carlos de Oliveira


Capixaba de Vitória, José Carlos Oliveira (1934-1986), ou Carlinhos Oliveira , como gostava de se chamar, é um dos principais cronistas brasileiros da segunda metade do século XX, ofício que exerceu principalmente através das colunas do Jornal do Brasil, onde colaborou, quase diariamente, por vinte e três anos, entre 1961 e 1984. Publicou quatro romances (O Pavão Desiludido, de 1972, Terror e Êxtase, de 1978, Um Novo Animal na Floresta, de 1981, e Domingo,22, de 1984) e quatro coletâneas de crônicas (Os Olhos Dourados do Ódio, de 1962, A Revolução das Bonecas, de 1967 , O Saltimbanco Azul, de 1979, e Bravos Companheiros e Fantasmas, de l986)

Diário da Patetocracia, coletânea póstuma, de l995, organizada por Bernardo de Mendonça , reúne as crônicas publicadas pelo autor no Jornal do Brasil ao longo de 1968, um ano excepcional tanto na vida brasileira quanto no resto do mundo que José Carlos Oliveira acompanha e reconstitui não só com o talento de cronista, mas com independência e destemor.
É por coisas assim que digo que o Botafogo não é para os óbvios, para os que seguem manadas ou nuvens...
Obs: A crônica foi escrita em 1957, ano em que o Botafogo derrotou o Fluminense por 6 a 2 na final do Carioca.

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