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O Deus Das Pequenas Coisas

By | 07:47 Leave a Comment


Começo este texto plagiando o título de um livro encantador que li já há alguns anos, de uma escritora indiana, Arundhati Roy. Foi seu primeiro livro e é de uma delicadeza nada menos do que recomendável a todos que apreciam a beleza das coisas simples. Mas, eu disse plagiando? Não! Plagiar é roubar. E não é isso o que faço aqui. Só estou pegando emprestado algo que me pareceu perfeito para a ocasião. Encanta-me a qualidade que algumas pessoas têm de traduzir tudo numa só frase. Que inveja! Obrigada, Arundhati.
 Pois bem. 
Saindo da Índia e voltando ao Brasil.

Sou uma pessoa que cresceu sem religião. Atéia e à toa. 
Nunca vi sentido algum em adorar coisas impalpáveis.
Minhas experiências com religião foram, para não falar pejorativamente, no mínimo "sofríveis".

A primeira vez que ouvi falar de Deus, foi por intermédio de minha mãe. Sinceramente, não ia com a cara dessa pessoa, esse tal de Deus/Jesus. Ele fazia minha mãe sofrer, chorar e lamentar-se da sina que lhe havia sido dada de cuidar de uma filha "doentinha mental". "Doentinha” era palavra da minha mãe. Sempre achei minha irmã muito saudável e, de alguma forma, lá do seu jeito, feliz. De qualquer maneira, era classificada como a "cruz" da minha mãe. Com certeza, se entendesse um pouco mais das coisas, não gostaria da etiqueta que lhe fora dada.

Desse Deus tirano, que fazia as mães dos outros sofrerem, passei à adolescência testemunhando um fato bizarro e inexplicável. Minha melhor amiga, virava e mexia, recebia umas entidades espirituais que me deixavam ao mesmo tempo perplexa e encantada. Ora era uma criança; ora era um preto velho; ora era um velho caboclo. Mas o que mais me encantava era a pombagira. Uma mulher do mundo. Minha amiga incorporava um gestual e uma linguagem pra lá de sensuais. Colocava uma rosa entre os dentes, vestia uma saia rodada, fumava, bebia e conquistava a todos com seu jeito faceiro. Eu ficava hipnotizada com a transformação. E aquilo me encafifava e me desnorteava da minha tão consagrada lógica. Como poderia estar ela fingindo aquilo tudo? Como poderia ser tão boa atriz? Afinal, nas peças escolares que apresentávamos na escola, ela era totalmente artificial e atrapalhada! Nunca tive uma resposta para isso. Mais uma dessas coisas que passam na vida e não têm explicação.

Aí me apaixonei. 
Por um cético de Deus igualzinho a mim. 
E juntos embarcamos, para desespero de minha mãe que não largava a sua cruz, nessa viagem sem Deus, agnóstica e atéia, que se estendeu por trinta anos. Nem pensava mais nisso. E veio a separação. E como a palavra já diz tudo, não preciso repetir que fiquei sozinha. Oops! Acho que precisei repetir, não é mesmo? Fui invadida por um sentimento de solidão interna que sempre estivera a minha espera. Espreitava-me e rondava-me  de longe. E de vez em quando, créu! Pegava-me de jeito! Só que o de-vez-em-quando, transformou-se em de-vez-em-muito. E isso me fazia pensar. E quanto mais pensava, mais invejava os que tinham alguma crença. Sempre ouvira dizer que os que criam em Deus, nunca estavam sozinhos.

Eis que mais uma vez a vida, essa coisa mágica e fantástica que nos acontece sempre que nosso coração respira, me enviou um presente. Daqueles que nem MASTERCARD pode comprar. Ganhei de presente um amigo de vida. Desses que só acontecem raramente e que não podem ser perdidos nunca, jamais. Um professor de vida e de Deus. Pela primeira vez me deparei com alguém que não se lamentava, não representava e não seguia nenhum rito dominical para encontrar seu Deus. Um homem discreto. A princípio de poucos sorrisos. Muito competente. Avesso a coisas medíocres e equilibradas. E muito, mas muito charmoso e apaixonante. É... Eu sei garotas. Mas nem adianta se descabelarem e ficarem histéricas. Ele é comprometido. E se não fosse, já estou na fila! Cheguei primeiro!

Ele me disse que eu não fazia sentido. Que o meu jeito de ser e me relacionar com o mundo e com as pessoas, não combinava com o discurso de uma pessoa que não crê em Deus. Isso me fez parar e pensar. Será? Será que lá no fundo eu teria alguma chance de também não seguir sozinha o meu caminho?


E foi movida por essa curiosidade e coragem de mudança que resolvi ir à missa ontem. Decidi ir à missa das seis da tarde, na pequena igreja do bairro onde já moro há dez anos e nunca havia sequer tido a curiosidade de ver como era por dentro. 

Antes que me esqueça, gostaria de destacar a beleza poética da tarde. 
A caminho da igreja ia pensando no privilégio que era morar num dos lugares mais lindos da já linda cidade do Rio de Janeiro. Moro na Urca. Preciso explicar mais? A tarde estava linda. O Redentor continuava lá, no alto do seu morro. Braços ainda abertos sobre uma Guanabara de um azul indescritível. O vento morno me aquecia o coração. Namorados trocavam mentiras sinceras na mureta. Pais orgulhosos passeavam com seus bebês. Adolescentes jogavam vôlei na praia. E lá ia eu. Sorvendo cada centímetro daquele quadro vivo e prestes a perder mais uma virgindade na vida.

Cheguei a tal igrejinha. 
Um mimo de singeleza. Pequena, sem ostentações. 
Pensei cá comigo: não é por nada que meu rei, RC, resolveu ser desta paróquia! Sentei em um dos últimos bancos. Não podia chegar pela primeira vez e já ir sentando na janelinha. E fiquei ali, quieta e compenetrada, esperando tudo começar.

E veio a primeira grande emoção da tarde. Ás seis horas em ponto, os sinos da capela começaram a badalar anunciando o início do rito. Junto com os sinos, a igreja foi invadida pelo som comovente da Ave Maria de Schubert. Queria paralisar aquele momento e deixá-lo ali, flutuando eternamente. Mas não consegui.Guardei-o na prateleira das coisas especiais do meu coração e chorei. Transbordei. E à medida que as lágrimas iam saindo, a emoção ia encontrando espaço para entrar. De repente, me vi ali, agradecendo. Não sei bem a quem agradecia. Achei ser à vida.
E começou o ritual da missa. 
Foi como se a mágica e a delicadeza do momento se quebrassem.
Todas aquelas pessoas ali, rezando juntas, coletando dinheiro dos fiéis, cumprimentando-se sem nem saber os nomes uns dos outros, me incomodaram. Elas interromperam o meu momento. Não consegui alcançar o que se seguiu. Parecia-me algo que beirava o fanatismo, palavra da qual tenho muito medo. Mas respeitei. Fiquei quieta. De pé. Ajoelhada. Sentada. Doida para que tudo acabasse e eu fosse liberada para ir tomar meu vinho de começo de noite. Houve um momento em que o padre invocou apenas os preparados para receberem o corpo de Cristo. Fiquei indignada. Preparados para quê?! Já fui colocada, certa vez, no grupo das "preparadas"! Mas por alguma certeza que não sei explicar, sei que ele não se referia a mim. E fiquei lá sentada, emburrada, esperando o final da cerimônia.

Até que algo mais aconteceu. Voltei a transbordar.
Fiquei feliz pelo meu toc de nunca sair do cinema antes de as letrinhas dos créditos terminarem de passar na tela. Ao final da missa, o padre chamou um casal de senhores que estava ali por um motivo muito especial. Comemoravam suas bodas de ouro. Nada menos do que cinquenta anos de casados. Estavam ali para renovar seus votos de amor e fidelidade. Mas o que me fez chorar de verdade, foi a senhorinha. Quando chegou a sua vez de repetir as palavras do padre, não conseguia parar de chorar. E quando ela disse "até o final dos meus dias", entre soluços, foi a gota d'água. Soluçamos juntas, as duas. Chorei tanto a ponto de as pessoas em volta me olharem com aquela expressão interrogativa, tipo: "será louca ou parente?"

E terminei minha experiência como comecei, aos prantos.

Saí da igreja e alguém me perguntou: "viu a luz?" A resposta imediata foi: não! Mas essa resposta não me convenceu.
Algo diferente acontecera ali. O que me fizera sorrir a caminho da igreja? O que me fizera chorar de dar dó enquanto estava lá dentro? E a resposta veio se desenhando aos poucos na minha mente, enquanto finalmente saboreava meu vinho. Caiu a ficha!

Eu havia encontrado Deus, sim! O “meu” Deus. 
O Deus das Pequenas Coisas. 
Aquele que me faz sorrir ao ver pais brincando com seus bebês.
Que me faz chorar por prazer, de emoção e pela neve fugidia.
Que faz com que eu me emocione ao ouvir mentiras sinceras.
Que faz meu coração pular de alegria e quase parar quando encontro alguém especial.
Que me invade de plenitude quando escrevo.

Que me torna eternamente criança quando danço.

E meu coração ficou leve. 
Parece que tirei um peso enorme das minhas costas.
Ele existe! E é meu também! Finalmente nos encontramos. 
Não sou atéia. Creio Nele. No MEU Deus.
O Deus das Pequenas Coisas.



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