23 de fevereiro de 2010

A fundação do PT em São José do Calçado

Logo após o PT ser fundado em SP, eu com um grupo de amigos, todos universitários à época, resolvemos fundar o partido na cidade onde nascemos, São José do Calçado, localizada no sul do Espírito Santo. Não conhecem ? Pois deviam, é terra de Geir Campos, grande poeta; e Darlene Glória, glória do cinema nacional nos anos 60 e 70 do século passado. Nossa, já vivi em dois séculos...

Mas vamos aos fatos: éramos uns 10, 12 jovens e resolvemos fundar o PT. Foi um tumulto na cidade, extremamente conservadora. Para terem ideia só tinha lá a ARENA, partido de apoio à ditadura militar. Eleições para prefeito era ARENA 1 x  ARENA 2. Com um agravante,  dois governadores do ES durante o período da ditadura eram de Calçado: Cristiano Dias Lopes e Eurico Rezende- que era mineiro, mas iniciou sua vida política lá em Calçado. Além de governador, foi senador e presidente nacional da finada- e espero que bem enterrada- ARENA. E mais José Carlos da Fonseca, que foi deputado federal e vice-governador do Estado.

Durante reunião na sede provisória do partido, o Bar do Faísca, resolvemos requisitar a Câmara de Vereadores para fazer a primeira reunião oficial do partido. Primeira confusão: Saragaia, um dos signatários da ata de fundação, protestou: tenho de tirar meu nome, papai é o prefeito, se vê meu nome nessa ata corta minha mesada, me tira da faculdade, me deserda... Percalços da revolução. Após muita discussão, regada a doses generosas de Fazenda Velha, cachaça produzida pelo prefeito (a direita já estava infiltrada entre nós), decidiu-se excluir o nome do Saragaia e incluí-lo posteriormente. Usamos o jeitinho em prol da revolução, além de preservamos o fluxo de cachaça, devidamente surrupiada pelo Saragaia do alambique do pai. Expropriação revolucionária...

Depois de tudo resolvido, ou quase (aprendi ali que em reunião de esquerda nunca está tudo resolvido), Maurinho Pirracento(volto a ele numa próxima crônica), já bêbado, falando alto e cuspindo ao mesmo tempo- sacrifícios revolucionários- questiona: "Aqui só tem estudante, o nome do partido é Partido dos Trabalhadores, precisamos arrumar ao menos um trabalhador para constar na ata de fundação".

Já viram, começou tudo de novo, até que , por sorte, adentra o recinto Zé Paraná, figura folclórica da cidade, grande contador de causos e loroteiro afamado na região. O Zé jurava de pé junto ter passado na ponte Rio-Niterói tocando gado. E quando ela ainda era de madeira!. Mas, em priscas eras, o bom e folclórico Paraná havia sido trabalhador rural.

Zé, já meio alto, se aproxima de nós e diz: - " Ah, 'cêis' tão aí metido com esse negócio de PT, né?! Tá um fuzuê danado na cidade por causa disso. Mas, querem saber: tá certo, vi o Barbudo falando outro dia e ele falou um monte de verdade. Eu apoio 'ôceis'!"

Levantamos Zé Paraná em júbilo, oferecemos-lhe  uma farta dose de cana e o nomeamos, em decisão unânime, representante dos trabalhadores rurais. E pedimos que falasse para nós. Não prestou! Lembram dos três políticos conservadores que citei lá em cima? Todos eram advogados e o Zé Paraná após falar durante um bom tempo, encerra assim sua peroração: -"Rapaziada, o partido tem tudo para crescer, mas é melhor convidarmos o Dr. Eurico, o Dr. Cristiano e o Dr Zé Carlos para entrar para o PT, porque partido sem 'dotô' num vinga não, gente!"

Silêncio sepulcral, quando o Jilozinho sugere : - "Pessoal, depois acabamos com isso, já são quase meia-noite, tem baile na zona lá em Bom Jesus, vamos pra lá esfriar a cabeça!".
Fomos, né...

Mãe


Há algum tempo venho acompanhando uma mãe e seu filho. Todos os dias lá vem ela, mãos dadas ao rapaz, talvez 20 anos, que é portador da síndrome de Down. Acordo cedo e desço para ver os jornais e conversar fiado na porta do boteco da esquina. Não demora muito e a cena se repete: lá vem a mãe, uma mulher esguia,uns 45anos, cabelos lisos e negros, com seu filho, em sua rotina diária. O rapaz estuda numa escola para portadores de necessidades especiais na rua em que moro.

Na esquina eles param e ficam, todos os dias, conversando por cerca de 10 minutos. Não há, nesse tempo, um momento sequer que ela deixe de fazer um carinho no filho. Alisa suavemente seu rosto, abraça-o, riem,continuam a conversa, agora de mãos dadas novamente.Fico ali, olhando a cena e, todos os dias, me emociono com aquela mãe.

Hoje, ao despedir-se do filho, estava eu de pé e ela, ao virar-se para sair, notou que eu olhava a cena. Fitou-me com seus grandes olhos negros e se foi. Fiquei ali, estático, pensando no olhar daquela mulher.

Não havia no olhar daquela mãe nenhum resquício de amargura, ódio, ressentimento, tristeza; ao contrário: havia altivez, ali; não a altivez do orgulho e da prepotência, não; havia a altivez do amor, da ternura, do afeto; enfim do dever cumprido, não por obrigação, mas por grandeza. Sim, havia cansaço naqueles olhos, mas daquele cansaço que castiga o corpo e alivia a alma. O cansaço do prazer de amar por inteiro aquele filho; cansaço que não cansa, pois se torna nada diante do seu amor infinito.

Estou aqui escrevendo, mas a vontade que tenho é de dar um forte abraço naquele mãe
e dizer: obrigado, mãe, nós, pobres homens, te invejamos por tanto amor...