2 de março de 2010

O dia em que Faísca beijou a boca da égua Itabirinha




Entro no Bar do Crissaf e vejo Jilozinho e Faísca bebendo encostados no balcão. Estão aprontando alguma, pensei cá com meus botões(aliás, meus botões devem ser muito burros, pois sempre que pensei com eles só fiz lambança)e fui de encontro aos dois.

- Estão aprontando o quê?-perguntei.

- Foi bom você ter chegado Jarrão, estamos combinando um negócio aqui e você pode ajudar- diz Jilozinho.
-É isso mesmo- atesta Faísca.
- Mas o que está havendo?- retruco.
- Rapaz, hoje nós fomos lá na Itabirinha e demos de cara com uma turma de Bom Jesus "pegando" nossa égua, assim nã dá, a Itabirinha é nossa, temos de fazer alguma coisa- diz Faísca, com raiva.
- É, a Itabirinha tá famosa, até gente de Bom Jesus está vindo atrás(literalmente!) dela- digo, já rindo.

- Não ri não, Jarrão, se o seu Jovelino descobre é capaz até de sumir com a bichinha, a gente ele não liga, nos conhece desde pequeno, mas gente estranha lá no sítio ele não vai admitir- diz Jilozinho, preocupado.
- Fica frio Jiló, depois a gente fala com o Lineu e ele bota alguém lá para espantar esses folgados e o pai dele não vai nem saber- digo.
- Lineu me sacaneou hoje- diz Faísca.
Como assim?-pergunto.
- Me viu com o Jiló lá no pasto, depois que o pessoal de Bom Jesus saiu; antes de eu vir para cá, passou lá no bar tomou duas e disse que era por conta da Itabirinha, sacanagem...diz, desolado.
- Daqui a pouco vira cafetão de égua- diz Jiló, se escangalhando de rir.
- Mas Jarrão, a melhor você não sabe, o Faísca deu um beijo na boca da Itabirinha- de língua e tudo...hahaha...e foi para a porta do bar, chorando de tanto rir.
- Mentira dele...Jiló você para de palhaçada se não vou me aborrecer com você- diz Faísca, injuriado.
- Mas afinal, Faísca, deu ou não deu?- pergunto, rindo.
- Foi nada disso, o Jiló, na vez dele, quando foi ter orgasmo( o termo usado por ele foi gozar, mas não posso escrever, pois minha mulher me proibiu de escrever besteira aqui. Até greve ameaçou fazer...portanto, fiquem com orgasmo mesmo )virou para mim, que estava na frente segurando o cabresto e disse: Faísca dá um beijinho na boca dela aí, tá tão bom!...agora fica de palhaçada, não demora e tá a cidade toda me azucrinando- diz Faísca- possesso.

- Tô fodido, ele foi contar logo a você- encerra o Faísca, desolado.

É,amigo Faísca, você estava coberto de razão...

1 de março de 2010

Tonicão

Dia dos pais, minha mãe avisa a mim e meus irmãos que o pai viria mais cedo para jantarmos juntos em um restaurante. Era uma sexta-feira e estranhei a notícia pois meu pai não era dado a essas comemorações- achava puro comércio, comerciante que era.
Marcou para 20hs.
Antonio Lahud, era seu nome de batismo, Tonicão para todos. Pesava cerca de 110ks, quando magro, o normal era por volta de 120ks distribuidos com fartura por cerca de 1,80m de altura. Não vou falar mais, a história que vou contar dirá quem e como ele era.

Todo mundo pronto, esperando sua chegada e...nada. Deu 9hs,10, 11, meia-noite e nada.
- Sabia- diz a mãe, hoje é sexta-feira, deve estar bebendo com os amigos e esqueceu da gente, vou preparar alguma coisa para vocês comerem. Quando ele chegar vai se ver comigo, deixa ele!- exclamou e saiu furinbunda, rumo à cozinha.

Todos de cara feia, com fome, sexta-feira perdida quando entra o pai- já meio alto, uma sacola em umas das mãos, na outra um pequeno embrulho.
- Poxa pai- digo- começando a reclamar.
- Ninguém fala nada- eu explico, mas antes peguem uma cerveja para mim. Minha irmã foi lá pegou a cerveja, serviu e sentamos para ouvir a explicação:
- Demorei por causa disso aqui- disse- colocando o pequeno embrulho por sobre a mesa.Ganhei de presente dos meninos lá do posto- completou, já chorando.

O presente era uma carteira de dinheiro, daquelas feita em plástico barato, e os meninos eram dois garotinhos negros e muito pobres que ficavam calibrando pneus lá no posto. Eram simpáticos e meu pai logo se tomou de amores pelos dois. Passou a dar almoço, comprou camisa do Flamengo e acompanhar os estudos...essas coisas de pai.
- Mas por que está chorando?- indaguei.

- Vocês não entendem- disse ele- quando estava saindo do posto os meninos vieram e me deram a carteira de presente pelo dia dos pais, compraram com o dinheirinho que ganham lá, calibrando pneus.

- E aí?- perguntei.

- Aí me deram um abraço e um beijo; não aguentei comecei a chorar, botei os dois no carro e levei eles para jantar em um restaurante- nunca tinham ido em um, comeram à vontade, tomaram sorvete, uma farra danada. Depois comprei seis galetos para cada um levar pra casa e comprei mais seis pra vocês: tão aí nessa sacola. Foi isso que aconteceu, agora podem zangar...terminou- ainda chorando.

Como que combinados, levantamos os três, eu, meu irmão e minha irmã e fomos dar um abraço no velho- todos com lágrimas nos olhos!

As lágrimas que escorrem em meu rosto agora não são só de tristeza e saudade por sua ausência, não pai; são antes lágrimas de alegria por ter sido você o meu pai...

Saudades...


Fiz essa crônica há algum tempo atrás, hoje como é dia dos pais resolvi republicar. A história é verdadeira e meu pai, entre tantas, talvez seja a maior saudade que carrego dentro do peito.
  Abraço, velho...saudades, muitas!!!