Acabo de falar com Totó, que anda sumido, e estou aqui rachando de rir. Depois das lamúrias sobre o seu time, que anda apanhando mais que as mulheres do Bruno, perguntei pelo Jilózinho, eis a resposta: - Aquele safado tá de caganeira, nem foi no velório da mulher do vizinho lá no Montanha Clube, quer dizer, mulher do vizinho não, quem morreu foi uma mulher que era cunhada da mulher do vizinho( não entendi bem, mas acho que o vizinho é dele, Totó), liguei pra ele e disse que não iria pois estava com diarréia. Diarréia nada, está é de caganeira de tanto beber cahaça, agora não compra mais bujãozinho é litro mesmo, quando vou zangar com ele, desliga o telefone na minha cara.
- Mas Totó, você conhecia a finada?- pergunto.
- Conhecer...conhecer...conhecia não, mas sou amigo do vizinho e fui ao enterro ver o movimento e encontrar os conhecidos. Até que tava bem animadinho o velório, aqui em Calçado anda tão parado que até velório dá audiência. Só faltou mesmo o cagão do Jilózinho...hahahah!
- Totó, quando vai aparecer aqui em Niterói?- indago.
- Só quando morrer e virar assombração, quem aparece é assombração seu burrinho, meu ser está querendo ir aí em novembro, de corpo presente e não aparecendo. E você vai pagar minha passagem, sem reclamar!, saí de uma prestação e entrei em outra e estou numa pindaíba danada. E vê se não me liga mais à tarde, estava tirando minha soneca e você me acordou, aliás, não me liga, eu ligo pra você, assim é melhor. Toinha me manda uns R$ 100.00, estou devendo um dinheirinho à minha lavadeira, mas só a parte do extra que ela faz. Antes que pergunte vou logo explicando: cada vez que vem lavar minhas roupas pago R$ 20.00, agora lavar e trepar é R$ 40.00, e estou em débito na segunda parte. Tô devendo R$ 60.00, você manda R$ 100.00, pago os atrasados e adianto duas, aí consigo uma de lambuja, entendeu seu burrinho. Bota amanhã na Banco do Brasil, ela vem sábado, e sábado passado ela já falou que se não pagar, meu crédito acabou e vou ter de me virar na mão mesmo. E vê se liga pro Jilózinho e zanga com ele, estou preocupado, é safado igual a você, mas adoro ele. Agora vou desligar, tenho de terminar minha soneca. Abraço!
E desliga o telefone na minha cara, como sempre!
2 de setembro de 2010
És fogo
Não adianta, não foges de mim, foges de ti, da paixão que te consome, pobre de ti, não conseguirás, uns nascem fogo, larva efervescente e incontrolável. Aquieta-se um tempo, mas volta, e queima a alma de desejo sufocado no medo da dor. Luta vã!, que fiques onde está, na calmaria insossa a que te recolheste. E quando deitares, não fique rolando na cama, o fogo te consumindo; e se dormires, que não acordes sobressaltada, o corpo trêmulo, o suor escorrendo, não foi nada, foi só sonho. Durma em paz. Se puder!
Fuja...é mais seguro; a vidinha mais ou menos- mais menos-, a gente vai levando. Tome banho frio, uns dez por dia, acalma o fogo. Não apaga, apenas o acalma por breves momentos. O fogo arde no interior do corpo. O sangue borbulha de desejo reprimido. És fogo, ainda que queira ser água. Esconda-se de ti, se puderes, tu que nasceste para arder na incandescência da lascívia...da entrega sem limites. Que o fogo que te consome não te queime a alma. E que resistas, a ti!
Fuja...é mais seguro; a vidinha mais ou menos- mais menos-, a gente vai levando. Tome banho frio, uns dez por dia, acalma o fogo. Não apaga, apenas o acalma por breves momentos. O fogo arde no interior do corpo. O sangue borbulha de desejo reprimido. És fogo, ainda que queira ser água. Esconda-se de ti, se puderes, tu que nasceste para arder na incandescência da lascívia...da entrega sem limites. Que o fogo que te consome não te queime a alma. E que resistas, a ti!
1 de setembro de 2010
Sonho
E não haverá mais injustiça. A ignomínia perecerá. A fome se extinguirá. Seremos negros, brancos, amarelos, árabes e judeus. Alá é meu Deus. Deus é meu Alá. Oxalá. E viveremos como semelhantes. Iguais. Na riqueza. No infortúnio. No amor . Na dor. Na alegria. Na fantasia. Seremos um. Todos. Não haverá mais fé. Caminharemos de pé. Juntos. Altivos em dignidade. Orgulhosos em igualdade. Os fracos. Os doentes. Os loucos. Na frente. A nos guiar. Não haverá leis. Nem foras da lei. Não haverá ordens. Nem contra ordens. Seremos eu. Seremos nós. Seremos juntos. Um só. Só haverá morte morrida. Nunca morte matada. Não haverá Estado. Nem fronteiras. Só a do amor; do afeto; da solidariedade; da ternura. Seremos delicados. E dedicados. A nós. Ao outro. Ao mundo. Sem armas. E seremos primavera. Eterna. Suave. Bela.
Quem derá...
Quem derá...
31 de agosto de 2010
Que sejam felizes
Na praça um casal namora, estão sentados no banco. Beijam-se, ora carinhosamente, ora com ardor. Param, o homem pega uma garrafa embrulhada em papel de jornal, serve uma dose no copo descartável e delicadamente o leva até à boca da mulher. Depois que ela bebe, ele a beija e vira o que restou. Ela fala alguma coisa e os dois começam a rir. Quase não há dentes na boca de ambos. Estão sujos- sujíssimos-, cabelos desgrenhados, o homem com barba mal-cuidada, a mulher com pernas cabeludas, algumas feridas em braços e pernas. Bebem mais um gole, o homem pega uns biscoitos na mochila rasgada e imunda, leva um à boca da amada, beija-a novamente, afaga seus cabelos duros de não ver água há tempos, depois ela se deita no colo dele, e fica ali deitada, ele acarinhando seu rosto com ternura. Passam-se alguns breves minutos quando dois guardas municipais se dirijem até eles e ordenam que se retirem da praça. Não esboçam qualquer reação, levantam-se, pegam seus maltrapilhos pertences e saem abraçados em direção à lugar nenhum. Que é seu lugar no mundo. São párias, bêbados, a escória da humanidade. Fico olhando a cena e vejo que o amor é o único resquício de humanidade ali naquele vão momento. Foi o que lhes sobrou do mundo: o amor de um homem por uma mulher. Nada mais têm, a não ser a si mesmos. O quê, aparentemente, lhes basta. Que sejam felizes...
Um dia triste
Hoje é um dia triste, mais um símbolo do Rio deixa de existir: o Jornal do Brasil, o velho e bom JB deixa de circular, terá somente uma versão digital. Vinha definhando há tempos e agora o triste fim. Foi através das páginas do JB que comecei a tomar ciência do mundo; que havia uma ditadura no país; que os jovens se rebelevam no mundo todo; que o Vietnam resistia; que derramei lágrimas ao ver às fotos do Che morto- tinha apenas 12 anos, mas aquela figura entre o romântico e o mítico me despertava sonhos de um mundo novo; que me apaixonei ainda mais pelo Botafogo, não fosse o JB uma fortaleza de alvinegros geniais: Armando Nogueira, João Saldanha, Sandro Moreira, Oldemário Touguinhó e Paulo Mendes Campos.
Obrigado a Carlinhos Oliveira, cronista de uma geração; obrigado Alceu Amoroso Lima, pelos ensaios brilhantes e sua luta contra a ditadura; obrigado Carlos Castelo Branco, pelo belo texto; obrigado a todos que fizeram o maior jornal que este país já viu. Foi com vocês que aprendi que a liberdade não tem preço; que o maior medo de ditadores é a inteligência; que canalhas que hoje andam por aí, posando de democratas, construíram suas carreiras lambendo coturnos des milicos. São piores que torturadores; foram omissos, coniventes, covardes. Querem nomes: Sarney, Maluf, Delfim Neto, Marco Maciel. É duro e triste ver o PT de braços dados com uma figura como Sarney, por mais que me expliquem, não consigo engolir. O sapo é grande demais, não passa pela garganta...
No fim o mundo é dos práticos, dos subservientes, dos canalhas...mas de quando em vez é sempre bom lembra-lhes o que são e que a História há de colocá-los em seus devidos lugares: o esgoto mais fétido, lugar de homens cujo caráter não vai além de um coturno. Os herois não se fazem lambendo botas, mas sendo pisados por elas.
Obrigado a Carlinhos Oliveira, cronista de uma geração; obrigado Alceu Amoroso Lima, pelos ensaios brilhantes e sua luta contra a ditadura; obrigado Carlos Castelo Branco, pelo belo texto; obrigado a todos que fizeram o maior jornal que este país já viu. Foi com vocês que aprendi que a liberdade não tem preço; que o maior medo de ditadores é a inteligência; que canalhas que hoje andam por aí, posando de democratas, construíram suas carreiras lambendo coturnos des milicos. São piores que torturadores; foram omissos, coniventes, covardes. Querem nomes: Sarney, Maluf, Delfim Neto, Marco Maciel. É duro e triste ver o PT de braços dados com uma figura como Sarney, por mais que me expliquem, não consigo engolir. O sapo é grande demais, não passa pela garganta...
No fim o mundo é dos práticos, dos subservientes, dos canalhas...mas de quando em vez é sempre bom lembra-lhes o que são e que a História há de colocá-los em seus devidos lugares: o esgoto mais fétido, lugar de homens cujo caráter não vai além de um coturno. Os herois não se fazem lambendo botas, mas sendo pisados por elas.
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| O fim de uma era |
30 de agosto de 2010
Gigabytes de menos
Travou...meio cérebro travou, como o mais reles computador. Ideias atravessam como raios, não dá tempo...está tudo desconectado...uma balbúrdia sem igual. Uma mistura desconcertante de pensamentos desconexos; excesso de neurônios destrambelhados, cada qual querendo impor sua vontade ao outro. Uma guerra mental sem tréguas, e eu no meio querendo controlar a confusão. Difícil, afinal a confusão sou eu, acho que nasci com pensamentos demasiados e gigabytes de menos. Sempre, desde a mais tenra idade( viram, estou ficando educado e besta!), gosto de ler, tudo e qualquer coisa. Adoro ler dicionário. Qual o problema, tão achando que sou maluco?!?! Estou ouvindo Para Elisa de Beethoven- posso ser maluco, mas tenho bom gosto, não acham? Como pode um povo que produz um Beethoven, um Mozart, um Goethe, entre tantos gênios da humanidade, se deixar levar por uma figura grotesca como Hitler?! Não estou falando de ideologia, estou falando daquela personalidade histérica, com um bigodinho ridículo, cheio de tiques e uma mente ordinária, conseguir levar um povo brilhante além das raias da loucura coletiva. Inexplicável! Outra coisa que sempre me intrigou foi a enorme quantidade de judeus-alemães que exerceram um papel fundamental em nossa maneira de ver o mundo: Marx, Einstein, Freud, Hannah Arendt, Norbert Elias, Walter Benjamim e mais uma gama deles. É intrigante...
Já estou começando a ficar preocupado, o Botafogo estava há oito jogos sem derrota, e perdeu sábado, o Jobson, nosso melhor jogador, se machucou...o Botafogo é tão destrambelhado quanto eu, quando começa a fazer lambança, hã!, vai até o limite. Pior, vai além...muito além...e ainda por cima o próximo jogo é contra um time que se chama Grêmio Prudente, exatamente o que não somos, eu e o Botafogo...prudentes...ao contrário, somos confusão e emoção. Nossa estrela vai do brilho mais intenso no firmamento ao mais profundo buraco negro num átimo de segundo. Mas sempre saímos, machucados, chamuscados, tontos, mas sempre mais fortes. Cansa...
Já estou começando a ficar preocupado, o Botafogo estava há oito jogos sem derrota, e perdeu sábado, o Jobson, nosso melhor jogador, se machucou...o Botafogo é tão destrambelhado quanto eu, quando começa a fazer lambança, hã!, vai até o limite. Pior, vai além...muito além...e ainda por cima o próximo jogo é contra um time que se chama Grêmio Prudente, exatamente o que não somos, eu e o Botafogo...prudentes...ao contrário, somos confusão e emoção. Nossa estrela vai do brilho mais intenso no firmamento ao mais profundo buraco negro num átimo de segundo. Mas sempre saímos, machucados, chamuscados, tontos, mas sempre mais fortes. Cansa...
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